59 views | Esportes | Atualizado em: 16/11/2017

Do penta ao hepta

Carille se tornou o maestro do título do Corinthians, oito anos como auxiliar preparam treinador para dar sequência aos títulos no Timão; ele é erguido nos braços pelo elenco e depois toma banho de cerveja, já como campeão brasileiro

s palavras de Tite nas reuniões com a comissão técnica davam asas aos objetivos de Fábio Carille na carreira: era preciso pensar como treinador para agir como auxiliar.

No Corinthians desde 2009, Carille colocava a cabeça para funcionar diante dos problemas apresentados nas partidas e se preparava para, um dia, assumir a função de forma definitiva. Pois o dia chegou. E chegou com título. No finzinho da noite de quarta-feira, enquanto dava uma volta olímpica com lágrimas nos olhos, enquanto era jogado no ar pelo elenco, enquanto levava um banho de cerveja de seus jogadores, ele era um treinador campeão brasileiro.

 Foi uma caminhada gradativa. Ao lado do atual técnico da Seleção, Carille foi personagem importante na formação da engrenagem das equipes que conquistaram o penta (2011) e o hexa (2015) do Brasileirão. Nesta temporada, pensando como treinador, agindo como treinador, sendo treinador, ele chegou ao heptacampeonato aos 44 anos.

– No começo, houve desconfiança. Disseram: “O Fábio não entende nada de futebol”. Vi hoje um vídeo do começo do ano que me chateou muito, dizendo que eu iria durar três jogos. Isso é um desrespeito enorme com o ser humano. Te pregam na parede e começam a jogar pedra sem saber. E são burros ainda, nem esperam começar o ano – afirmou Carille.

A trajetória

Responsável por treinar a linha de quatro defensiva do Timão por oito anos, funcionando como um braço de Mano Menezes, Adílson Batista, Tite, Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira, Carille sempre desejou ser treinador. Desde a aposentadoria como jogador, em 2007, o ex-zagueiro e lateral-direito trocava informações com o amigo Leandro da Silva, o Cuca (não confundir com o ex-técnico do Palmeiras), e planejava um dia assumir a função.

 O convite do Corinthians, feito pelo amigo Sidnei Lobo (o outro auxiliar de Mano), tornou Carille peça fixa na comissão corintiana. Em 2010, entre Adilson e Tite, comandou um time com Ronaldo e Roberto Carlos por dois jogos. Assustado, admitiu para si que aquilo era grande demais.

Em 2011, com Tite, sobreviveu ao episódio Tolima e viu a equipe se sagrar campeã brasileira com a melhor defesa da competição (36 gols em 38 jogos). Um prêmio para o responsável pelo setor, que contava com nomes como Alessandro, Chicão, Paulo André, Leandro Castán e Fábio Santos.

– Carille sempre foi um cara tranquilo, observador. Fazia trabalhos de posicionamento, tempo de bola. Era um cara que cobrava também. Quando via algo errado, tinha liberdade para corrigir. Dava para perceber que ele entendia do que estava falando – destacou o ex-zagueiro Chicão.

Carille e Tite tiveram uma ótima relação no Corinthians (Foto: Daniel Augusto Jr/Ag Corinthians)

Carille e Tite tiveram uma ótima relação no Corinthians (Foto: Daniel Augusto Jr/Ag Corinthians)

Carille e Tite tiveram uma ótima relação no Corinthians (Foto: Daniel Augusto Jr/Ag Corinthians)

Veio 2012, o ponto máximo para o Corinthians, campeão da Libertadores e do Mundial. Em 2013, mais títulos: Paulistão e Recopa Sul-Americana. A crise no Brasileirão derrubou Tite, e Mano Menezes retornou. Em 2014, o clube se reconstruiu. No ano seguinte, o atual técnico da Seleção regressou para montar uma das melhores equipes recentes do Timão.

Carille reencontrou Mano Menezes em 2014, no mesmo Corinthians (Foto: Daniel Augusto Jr/Ag Corinthians)

Carille reencontrou Mano Menezes em 2014, no mesmo Corinthians (Foto: Daniel Augusto Jr/Ag Corinthians)

Carille reencontrou Mano Menezes em 2014, no mesmo Corinthians (Foto: Daniel Augusto Jr/Ag Corinthians)

No hexa, a equipe que encantou o país com Renato Augusto & Cia. tinha nova força defensiva. Fagner, que chegou em 2014 com problemas de marcação, vivia seu auge. Absoluto, Gil teve em Felipe o parceiro ideal, após anos de trabalho intenso com Carille para corrigir posicionamento. Na esquerda, Uendel e o promissor Guilherme Arana se alternaram por conta de lesões.

O resultado? Só 31 gols sofridos nos 38 jogos e, de novo, a melhor defesapara o time campeão.

– Ele foi essencial para a minha carreira. Por quatro anos, falou que eu tinha qualidades a serem trabalhadas. Ele e Tite foram importantes na minha evolução. Era como um paizão – destacou Felipe, zagueiro que, antes desacreditado, foi vendido ao Porto, de Portugal.

Auxiliar fixo de Tite há quase 20 anos, hoje na Seleção, Cleber Xavier diz que Carille fazia parte de todas as decisões tomadas pela comissão técnica no período de glórias vividos nos últimos anos.

– Nos perguntam se ele aprendeu com a gente, se está fazendo igual. Não, a gente abre as discussões para a comissão, todos têm sua importância. A gente decide as coisas, cria as situações e decide. Fábio era um treinador junto comigo, Delamore e Sylvinho, que foram os auxiliares – afirma Cleber.

– Fábio pegou o trabalho e aos poucos foi colocando as ideias dele. Tinha uma participação enorme na parte defensiva. A gente dividia os treinos, mas as decisões eram iguais – completa.

Cleber Xavier, Tite e Carille na campanha do hexa em 2015 (Foto: Daniel Augusto Jr/Ag Corinthians)

Cleber Xavier, Tite e Carille na campanha do hexa em 2015 (Foto: Daniel Augusto Jr/Ag Corinthians)

Cleber Xavier, Tite e Carille na campanha do hexa em 2015 (Foto: Daniel Augusto Jr/Ag Corinthians)

Em 2016, Tite foi embora, Cristóvão Borges teve rápida passagem, e Carille fez oito jogos como interino. Apesar da promessa da diretoria de que iria até o fim do ano na função, deu lugar a Oswaldo de Oliveira na reta final por uma preferência pessoal do presidente Roberto de Andrade.

O fracasso da mudança, a boa imagem deixada por Carille e o momento financeiro ruim do clube permitiram a efetivação do auxiliar, que fechará 2017 com os títulos paulista e brasileiro. No jogo que sacramentou a conquista nacional, foi novamente decisivo: tirou Camacho e colocou Jadson no intervalo, quando perdia por 1 a 0, e viu a equipe virar o jogo para 3 a 1.

Carille no jogo do título: mudança no intervalo melhorou a equipe (Foto: Marcos Ribolli)

Carille no jogo do título: mudança no intervalo melhorou a equipe (Foto: Marcos Ribolli)

Carille no jogo do título: mudança no intervalo melhorou a equipe (Foto: Marcos Ribolli)

Para que tudo isso fosse possível na primeira temporada como efetivado, além das observações diárias e das experiências como auxiliar, Carille foi buscar conhecimento teórico. Entre o fim de 2015 e o meio de 2016, tirou a Licença A no curso da CBF Academy. No fim do ano passado, iniciou os estudos para o Licença Pro, nível mais alto do programa da entidade.

Em dezembro, mesmo campeão brasileiro, estará na sala de aula para concluir sua formação.

Por: Globoesporte

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